Trago uma memória de volta
- Alessandro Ossola

- 20 de mar. de 2024
- 5 min de leitura

Ser um fotógrafo documental especializado em eventos de religiões afro-brasileiras é mais do que capturar imagens. É assumir o compromisso de registrar com respeito, sensibilidade e consciência histórica manifestações de fé.
As religiões afro-brasileiras, como o Candomblé, a Umbanda e outras vertentes, carregam séculos de resistência, saberes e espiritualidade. Documentar esses rituais exige não apenas técnica fotográfica, mas uma escuta atenta, humildade e uma imersão verdadeira nos significados simbólicos de cada gesto, indumentária, canto ou dança. É necessário compreender que cada clique toca em territórios sagrados, protegidos e, muitas vezes, invisibilizados ou estigmatizados socialmente.

Cada rito, cada batida do atabaque, cada
dança de orixá é carregada de sentidos que vão além do visível. Ao registrar uma gira de Umbanda, uma festa de Iemanjá ou um xirê no Candomblé, o fotógrafo não é apenas um observador externo — ele é um convidado a participar de um momento sagrado. E isso impõe uma responsabilidade ética: não se trata de capturar o exótico ou o curioso, mas de revelar a beleza, a força e a dignidade de um povo que constrói sua fé com o corpo, com a música e com o tempo.
Antes de levantar a câmera, é preciso pedir licença. Licença aos guias, às entidades, aos sacerdotes e sacerdotisas, aos ancestrais. É preciso estabelecer confiança com os terreiros e comunidades, respeitar os momentos em que a câmera não deve estar presente e entender que o protagonismo das imagens pertence às pessoas retratadas — não ao fotógrafo.
A fotografia documental, nesse contexto, atua como ponte entre mundos. Ela pode ajudar a desconstruir preconceitos, visibilizar saberes tradicionais e fortalecer a identidade cultural afro-brasileira. Mas esse poder só é bem utilizado quando vem acompanhado de ética, sensibilidade e compromisso social.
A Fotografia e o fotógrafo
Minha história fotografando religiões de matriz africana começou em __ e desde então diversos projetos foram contemplados nesta temática.
Ser fotógrafo documental das religiões afro-brasileiras é, portanto, uma jornada espiritual e política. É lutar contra a intolerância religiosa com a luz da imagem, é registrar a beleza da fé com reverência, é eternizar a presença dos orixás, guias e encantados com a dignidade que lhes é devida. É, enfim, uma forma de também ser guardião de memórias sagradas — com os olhos atentos, o coração aberto e a câmera como instrumento de respeito e resistência.

O projeto Trago sua memória de volta
É um projeto étnico-fotográfico dedicado ao registro respeitoso e à valorização das manifestações religiosas afro-brasileiras. Possui uma abordagem sensível e autoral, com função não apenas de documentar, mas também celebrar a força, a ancestralidade e a diversidade dessas tradições.
MARKETING
A campanha tem comunicação visual inspirada na estética vibrante e autêntica do subúrbio carioca. Técnicas como o lambe-lambe e outras formas de divulgação de rua foram pensadas como recurso visual para conectar o projeto às raízes territoriais que o inspiraram.
ARTES CONCEITUAIS
Na fase inicial, foi criado artes conceituais que traduzem visualmente a essência e o propósito do projeto. Essas peças são mais do que esboços: são a materialização do conceito que guia toda a obra — resgatando memórias, corpos e histórias através da imagem.
A CAMPANHA
Produção dos Cartazes e Identidade Visual
Foram confeccionados e impressos cartazes no estilo lambe-lambe, resgatando a estética clássica das ruas do Rio de Janeiro. A identidade visual do fotógrafo foi inspirada na figura icônica do Malandro dos Arcos da Lapa, com chapéu branco e faixa vermelha, além de roupas brancas que simbolizam pureza e conexão espiritual. A blusa foi desenvolvida em parceria com a marca I.cor.por.e, reforçando o vínculo com a cultura local.
A câmera utilizada nas produções remete aos anos 90, agregando autenticidade e uma textura vintage às imagens. A configuração visual do fotógrafo faz referência a Exu, entidade que abre caminhos e conduz ao conhecimento, representando a força transformadora e ancestral por trás do projeto.
Captura das Imagens e Estética
As fotografias foram registradas em locais simbólicos do Rio de Janeiro — como as ruas do subúrbio, o centro histórico e pontos chave da cidade. A colorização e a edição final do material em vídeo evocam uma atmosfera vintage, transportando o espectador para o passado e provocando uma reflexão sobre memória e identidade.
Significado do Título
O título "Trago Sua Memória de Volta" é uma releitura da famosa expressão "Trago Seu Amor de Volta", comum no imaginário cultural e religioso brasileiro. Essa escolha reforça o propósito do projeto: resgatar e reafirmar histórias, tradições e existências outrora apagadas, devolvendo-as ao lugar de destaque que merecem.
FOTOGRAFIA GERA MEMÓRIA
O projeto ganhou uma segunda campanha, inspirada na estética e no legado do Profeta Gentileza.
José Datrino (1917–1996) tornou-se um ícone cultural do Rio de Janeiro ao transformar a cidade em tela com seus murais repletos de mensagens de amor, paz, humanidade e crítica social. Entre as décadas de 1980 e 1990, suas pinturas em verde e amarelo — cores que dialogam com a identidade brasileira — espalharam frases filosóficas, poéticas e espiritualizadas, sempre enfatizando a importância da gentileza, do cuidado com a natureza e da resistência ao materialismo e à violência.
Sua máxima, “Gentileza gera gentileza”, ecoa até hoje como um lembrete poderoso de transformação social por meio de gestos simples e afeto.
Inspirados por essa linguagem visual e simbólica, a nova fase do projeto incorpora não apenas as cores e formas características do Profeta, mas também seu espírito contestador e generoso. Cada peça da campanha é um tributo à sua mensagem atemporal e um convite para reflexão sobre o mundo que queremos construir.

EXPOSIÇÃO ORIXÁS
Em 2025, foi lançada a primeira exposição derivada do projeto "Trago Sua Memória de Volta": ORIXÁS.
Realizada em Guaratiba/RJ, em parceria com o Kwe Sėjá Igbá Essin, a mostra apresentou fotografias que retratam Orixás devidamente caracterizados e paramentados, resgatando com respeito e beleza visual a força e a ancestralidade das tradições afro-brasileiras.
A exposição não apenas celebrou os ricos arquétipos dos Orixás, mas também reforçou o compromisso do projeto com a valorização cultural e a representação sagrada por meio da arte fotográfica.
RAÍZES DA RELIGIÃO
Por convite de Doné Verônica, mãe de santo da casa Kwe Sėjá Igbá Essin, tive a honra de participar da roda de conversa “Raízes da Religião”, promovida pelo próprio centro.
Durante o evento, realizado em 23 de março de 2025, apresentei o projeto “Trago Sua Memória de Volta” e compartilhei os detalhes da exposição “Orixás”, dialogando com os participantes sobre a importância do registro respeitoso e da valorização das tradições afro-brasileiras.
Foi uma oportunidade profundamente significativa de troca e fortalecimento comunitário.
FAZENDO CIÊNCIA

Em 2025, ingresso no mestrado do Programa de Pós Graduação em Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná com um projeto de pesquisa voltado para fotografias de religiões de matriz africana.
Ao documentar religiões afro-brasileiras, não estamos apenas fazendo registros visuais. Estamos ajudando a preservar memórias, a combater estigmas e a valorizar formas de religiosidade que foram por muito tempo marginalizadas. Cada imagem carrega o eco dos ancestrais, o gesto da sobrevivência cultural e a poesia viva da fé que resiste.
Axé !!
























































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